
Secretária de Obras de Gravatá afirma ter sido insultada por parlamentares da oposição enquanto exercia função institucional; caso reacende debate sobre violência política, comparação e machismo
Há cenas que, de tão simbólicas, dispensam maiores explicações. Esta é uma delas. Viviane Facundes, secretária de Obras de Gravatá, estava onde deveria estar: na rua, acompanhando as obras. Nada de gabinete, nada de discurso ensaiado. Eis que surgem dois vereadores. Não para fiscalizar, nem para apontar soluções ou contribuir. Surgiram para produzir conteúdo, e um conteúdo, nesse caso, de ataque.
Pouco depois, como num roteiro repetido à exaustão, as redes sociais viraram palco: críticas genéricas, insinuações e tentativas de desqualificação. Não há laudo, não há dado, não há fundamento. Há narrativa. E narrativa sem realidade é apenas barulho.
Mas convém separar as motivações. De um lado, Aldo La Massa. Sua atuação se confunde com a de integrante de um conhecido programa de rádio da região que opera de modo peculiar: elevam ou destroem reputações conforme conveniências. Um verdadeiro negócio de influência, em que o debate público vira instrumento e a opinião vira moeda. O modus operandi é conhecido: tensionar, amplificar e desgastar. Resolver o problema? Não é exatamente a prioridade.
Do outro lado, Ricardo Malta. Aqui a coisa ganha contornos mais didáticos. Ex-secretário da mesma pasta, ele carrega um problema clássico: a comparação. E a comparação, como se sabe, é implacável. Viviane Facundes, ao sucedê-lo, não apenas deu continuidade ao trabalho, ela o elevou. Fez mais, fez melhor e em menos tempo. Isso não é opinião; é fato.
Mas não para por aí. Há também o componente político-eleitoral. Ricardo atua em sintonia com um grupo estadual que vê, em uma eventual candidatura de Viviane Facundes à Assembleia Legislativa, um obstáculo concreto: ela tiraria votos de um certo deputado que, já desgastado, dificilmente se elegeria sem o apoio do prefeito de Gravatá. Assim, o ataque virou estratégia de sobrevivência.
E aqui entra a grande ironia: antes da política, Ricardo era gerente da Compesa. E o que o gravataense recorda dessa época não é exatamente a eficiência hídrica. Ao contrário: recorda-se de um tempo em que a falta d’água era rotina e o povo sofria com a sede.
Coube justamente a Viviane fazer o que não foi feito por quem teve a caneta na mão. Junto ao prefeito Padre Joselito, com articulação direta à governadora Raquel Lyra, ela viabilizou a chegada das águas do Rio São Francisco a Gravatá. Água de verdade, da que chega na torneira e resolve a vida, não da que vira promessa vazia em palanque.
Mas há um ponto em comum nessa história que é o mais incômodo. Entre todas as secretarias, a mais atacada é justamente aquela que sempre foi ocupada por homens e hoje é comandada por uma mulher. Coincidência? Difícil sustentar. O padrão revela algo mais profundo: a tentativa reiterada de tutelar, de desqualificar e de ditar como ela deve agir. É o velho vício travestido de fiscalização, o machismo que não se assume, mas se pratica.
É preciso dizer sem rodeios: isso ultrapassa a política e entra no campo da violência simbólica. Repetir ataques e tentar fragilizar publicamente uma mulher em posição de liderança não é controle institucional, é pressão. É tentativa de enquadramento. É, no limite, violência psicológica.
Se fosse uma gestora fraca, talvez sucumbisse. Talvez recuasse ou aceitasse o papel de quem se deixa tutelar. Mas não é o caso.
O que se vê, portanto, não é fiscalização. É outra coisa.
De um lado, quem trabalha e entrega, quase cem ruas, obras estruturantes e equipamentos públicos recuperados. De outro, quem, incapaz de competir no terreno da eficiência, prefere o atalho da agressão.
No fim, a pergunta permanece, incômoda como deve ser: isso é zelo com o interesse público ou é medo da comparação?
Porque, no fundo, o que parece incomodar não é a obra. É quem a está fazendo.


