
Eleições não são um “evento”; são um teste de Estado de Direito. Em 2026, o Brasil vai novamente medir a capacidade de suas instituições — e de seus atores políticos e econômicos — de operar dentro de regras, limites e responsabilidades. Mais uma vez uma avalanche de recurso público para custear a festa democrática irá exigir integridade. Não como ornamento moral,mas como a infraestrutura jurídica da democracia. Quando ela falha, o que sobra é o velho roteiro: abuso de poder, caixa-preta decisória, manipulação informacional e captura do interesse público.
No mundo corporativo, compliance já é entendido como sistema de gestão de riscos, prevenção e resposta. No ambiente eleitoral, deveria ser tratado com o mesmo rigor: governança aplicada, com controles, rastreabilidade e accountability. A teoria ajuda a enxergar o óbvio: se campanhas são “organizações temporárias” com alta pressão e baixa tolerância ao atraso, o risco de desvios cresce (incentivos perversos, assimetria informacional, lógica de “fim que justifica meios”). A prática confirma: onde não há controle, há improviso; onde há improviso, há violação. E a integridade fica pelo meio do caminho.
O que se chama de “esperteza eleitoral” frequentemente é, juridicamente, zona de risco. E risco, no direito, tem consequências: inelegibilidade, sanções eleitorais, responsabilização civil, administrativa e, em hipóteses específicas, penal. A arquitetura normativa brasileira não é tímida: Constituição Federal (moralidade, legalidade, publicidade), regras eleitorais e de propaganda, deveres de transparência, além de marcos relevantes de integridade e responsabilização. Ademais, os recursos partidários e os “fundões” nascem da mesma origem: o dinheiro do contribuinte.
Se a política insiste em tratar integridade como retórica, vale recolocar em termos operacionais: eleição é um ambiente de compliance de alto impacto.
Campanha contrata, terceiriza, impulsiona, produz conteúdo, movimenta recursos. Sem due diligence, critérios formais, segregação de funções e documentação robusta, a campanha vira um organismo opaco. Isso não é “burocracia”: é prevenção de ilícitos e de abuso de poder econômico, além de blindagem reputacional.
Em tempos de aceleradas fake-news, a integridade também é método de verificação. O debate público é protegido, mas não é terra sem lei. A lógica do “viraliza primeiro, apura depois” colide com deveres de cuidado, com responsabilidade por danos e com limites normativos sobre propaganda e impulsionamento. Some-se a isso a proteção de dados pessoais (LGPD) e o urgente rebate dos limites de regulação nas redes, e fica claro: não existe “marketing eleitoral” fora do direito.
A pergunta central de 2026 não é apenas “quem vence?”. É como se vence — e o que se considera aceitável no caminho. Quando integridade vira acessório, a política passa a operar no “modo exceção”: normaliza-se a mentira útil, o contrato nebuloso, o atalho “técnico”, o abuso “estratégico”. E a erosão institucional é cumulativa: hoje é a regra contornada, amanhã é a regra desacreditada, depois é a regra ignorada.
A responsabilidade, porém, não se esgota no candidato. Partidos políticos, coligações e federações devem assumir, com seriedade institucional, que são corresponsáveis pela integridade do processo: não basta chancelar nomes, é preciso impor padrões, controlar a cadeia de campanha, exigir transparência e reagir a desvios com disciplina e governança, sob pena de normalizar a infração como método.
As instâncias fiscalizadoras e de controle — Justiça Eleitoral, Ministério Público, órgãos de auditoria e controle — precisam atuar com independência, proporcionalidade e previsibilidade, reprimindo o abuso e desestimulando a reincidência, porque impunidade é incentivo.
Mas, sobretudo, há um ponto decisivo: o eleitor. Integridade não se observa apenas em discurso; ela se observa em prática: quem financia, como contrata, como comunica, como reage ao erro, como trata a verdade e a lei. Porque, no fim, “costume de casa vai à praça”: o comportamento na campanha é o ensaio do governo. Quem normaliza atalhos para ganhar voto tende a normalizar atalhos para governar. E mandato não corrige caráter nem cria compromisso com regras; apenas dá poder a quem já demonstrou como pretende usá-lo.
Se 2026 pretende ser mais do que um campeonato de narrativas, integridade precisa sair do palanque e entrar no procedimento. Quem pede voto deve aceitar controle. Quem quer governar deve prestar contas. O resto é só estética democrática — e estética, sozinha, não impede o vale-tudo.
Mariana Teles é Advogada especialista em Compliance e Escritora



