Coluna desta terça-feira

Foto: Manoela Melo/TV Globo

O Brasil precisa de pacificação

Desde 2013, quando as manifestações populares ganharam as ruas durante a Copa das Confederações, o Brasil mergulhou numa crise política que atravessou governos, eleições e instituições, deixando marcas profundas na sociedade. O que começou como uma mobilização contra o aumento das tarifas de transporte transformou-se numa insatisfação generalizada com a classe política. Em 2014, Dilma Rousseff e Aécio Neves protagonizaram uma das disputas presidenciais mais acirradas da história, cujo resultado foi questionado pela oposição. Dois anos depois, Dilma sofreu impeachment, abrindo caminho para Michel Temer assumir a Presidência da República. Embora o impeachment seja um instrumento previsto na Constituição, sua legitimidade política foi duramente contestada, alimentando acusações de golpismo e aprofundando a divisão nacional. Desde então, o país parece ter perdido a capacidade de conviver democraticamente com suas divergências.

A chegada de Temer ao Palácio do Planalto coincidiu com o auge da Operação Lava Jato, que culminou na condenação e prisão de Luiz Inácio Lula da Silva, impedindo sua candidatura presidencial em 2018. Naquele ano, Jair Bolsonaro emergiu como principal liderança da direita brasileira, numa eleição marcada também pelo atentado a faca sofrido pelo então candidato em Minas Gerais. Posteriormente, Lula recuperou a liberdade e teve suas condenações anuladas pelo Supremo Tribunal Federal, restabelecendo seus direitos políticos. Em meio às consequências da pandemia da Covid-19, voltou à disputa presidencial em 2022 e derrotou Bolsonaro. A polarização, entretanto, não terminou nas urnas. Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 agravaram a crise institucional, culminando, em 2025, na condenação e prisão de Bolsonaro por sua participação na trama golpista, segundo decisão judicial. Mais uma vez, o Brasil chegaria a uma eleição presidencial carregando ressentimentos acumulados.

No último domingo, Lula conquistou a reeleição após uma disputa duríssima contra Flávio Bolsonaro, que assumiu o protagonismo eleitoral da direita diante da inelegibilidade e prisão do pai. O resultado, entretanto, não pode ser interpretado como uma vitória absoluta de um campo político sobre o outro. Lula venceu a disputa pelo Poder Executivo, enquanto o Partido Liberal consolidou sua força no Congresso Nacional, ampliando sua representatividade na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Portanto, tanto o PT quanto o PL saíram das urnas legitimados por parcelas expressivas da população brasileira. Ignorar essa realidade seria repetir os erros que alimentaram a polarização durante mais de uma década. O governo tem legitimidade para governar, assim como a oposição possui legitimidade para fiscalizar, divergir e apresentar alternativas. Nenhum dos dois campos pode reivindicar o monopólio da representação popular.

Depois de treze anos de conflitos sucessivos, o Brasil precisa virar essa página. Isso não significa apagar diferenças ideológicas, relativizar responsabilidades ou exigir unanimidade, mas reconhecer que a democracia pressupõe convivência, respeito institucional e disposição para o diálogo. Lula e as lideranças do PL precisam compreender que milhões de brasileiros esperam soluções para problemas concretos, e não uma guerra política permanente. Segurança pública, crescimento econômico, geração de empregos, equilíbrio fiscal, saúde e educação deveriam constituir uma agenda mínima de convergência nacional. É hora de baixar a guarda, abandonar a lógica de inimigos irreconciliáveis e reconstruir pontes. A pacificação não depende da ausência de oposição, mas da capacidade de adversários políticos colocarem os interesses do país acima de suas disputas. O Brasil não pode continuar refém de uma briga que já consumiu treze anos de sua história. É preciso compreender que vencer uma eleição não significa derrotar metade do país, mas assumir a responsabilidade de governar para todos.

Articulação política – O presidente nacional do PT, Edinho Silva, afirmou que Lula deverá dialogar com partidos que estiveram em campos adversários para formar seu novo governo. A prioridade será construir uma base parlamentar capaz de garantir governabilidade diante de um Congresso com forte presença da oposição.

Diálogo institucional – O presidente Lula se reuniu nesta segunda-feira com os presidentes da Câmara, Hugo Motta, e do Senado, Davi Alcolumbre, um dia após sua reeleição. O encontro sinaliza uma tentativa de aproximação entre o Palácio do Planalto e o Congresso Nacional, que terá maioria de direita a partir de 2027. A governabilidade e a pacificação política estiveram no centro das manifestações dos dirigentes. 

Mercado financeiro – A reeleição de Lula provocou forte turbulência no mercado nesta segunda-feira. O dólar encerrou o pregão cotado a R$ 5,40, enquanto o Ibovespa despencou 13,88%, levando a Bolsa a acionar o mecanismo de interrupção das negociações. A reação evidencia a preocupação dos investidores com os rumos da política econômica.

Repercussão internacional – A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro ganhou destaque na imprensa internacional. Jornais europeus ressaltaram a virada eleitoral do petista, enquanto veículos britânicos apontaram os desafios de governar um país dividido e enfrentar um Congresso de perfil conservador.

Inocente quer saber – Até quando o STF continuará sendo instrumento de vingança, perseguição e instabilidade institucional? 

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Quem sou eu
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Edmar Lyra

Jornalista político, foi colunista do Diário de Pernambuco e da Folha de Pernambuco, palestrante, comentarista de mais de cinquenta emissoras de rádio do Estado de Pernambuco e CEO do instituto DataTrends Pesquisas. DRT 4571-PE.

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