
A disputa pelas duas vagas de Pernambuco no Senado entra na reta final com um ingrediente que historicamente já provocou mudanças importantes no Estado: o segundo voto. Quando o eleitor pode escolher dois senadores, a fotografia apresentada pelas pesquisas algumas semanas antes da eleição nem sempre chega intacta às urnas. Pernambuco tem exemplos claros disso, e eles ajudam a entender por que a corrida atual ainda merece ser observada com atenção.
Eduardo da Fonte chega a esse momento dentro do grupo competitivo e com um ativo político relevante: integra a chapa da governadora Raquel Lyra, que lidera a disputa pelo Governo do Estado segundo a pesquisa DataTrends. Essa circunstância não significa transferência automática de votos, mas cria um universo potencial importante para sua candidatura. A questão das próximas semanas é saber quantos eleitores de Raquel ainda não definiram suas duas escolhas para o Senado e quanto a chapa conseguirá estimular o voto combinado.
A história pernambucana mostra que esse movimento pode fazer diferença. Em 1986, Antônio Farias protagonizou uma das grandes surpresas das eleições estaduais. Roberto Magalhães aparecia como um dos nomes mais fortes da disputa, enquanto Farias começou a campanha distante das primeiras posições. Na reta final, Miguel Arraes intensificou a vinculação de Mansueto de Lavor e Antônio Farias à sua candidatura. O resultado foi a eleição dos dois: Mansueto ficou em primeiro e Antônio Farias conquistou a segunda cadeira, deixando Roberto Magalhães de fora.
Em 1994, outro movimento chama atenção. Carlos Wilson aparecia com apenas 15% em levantamento de junho, muito atrás de Roberto Freire, que tinha 34%. Ao longo da campanha, Carlos cresceu: chegou a 24% em agosto e 28% em setembro. Nas urnas, foi ainda mais longe. Terminou como o candidato mais votado para o Senado, com 869 mil votos, superando Roberto Freire, que também conquistou uma cadeira.
O pleito de 2002 oferece outro precedente relevante. Marco Maciel aparecia com vantagem confortável, enquanto Carlos Wilson e Sérgio Guerra disputavam a outra cadeira. Em levantamento da reta final, Carlos ainda aparecia numericamente à frente de Sérgio. A campanha de Jarbas Vasconcelos, entretanto, intensificou o pedido de voto casado em Marco Maciel e Sérgio Guerra. Nas urnas, Sérgio ultrapassou Carlos Wilson e conquistou a segunda vaga.
Mas nenhum exemplo recente é tão emblemático quanto o de Armando Monteiro em 2010. No final de agosto, pesquisa Ibope mostrava Humberto Costa com 49%, Marco Maciel com 37% e Armando com 28%. Poucos dias depois, o Datafolha ainda registrava Marco com 32% e Armando com 30%. A disputa parecia concentrada na segunda cadeira.
Então veio a arrancada. Em levantamento realizado em 21 e 22 de setembro, Armando apareceu com 42%, depois de registrar 32% na rodada anterior do Datafolha. Um crescimento de dez pontos em aproximadamente uma semana mudou completamente a configuração da eleição. E a urna produziu algo ainda mais significativo: Armando não conquistou apenas a segunda vaga. Terminou como o senador mais votado de Pernambuco, com 3,14 milhões de votos, seguido por Humberto Costa, com 3,05 milhões. Marco Maciel ficou fora.
Em 2018, a movimentação final também existiu, embora não tenha sido suficiente para alterar os dois eleitos. Mendonça Filho cresceu na reta final e terminou com 1,30 milhão de votos, aproximando-se de Jarbas Vasconcelos, que conquistou a segunda cadeira com 1,43 milhão. A diferença final entre os dois ficou em cerca de 128 mil votos.
É diante desses precedentes que a posição atual de Eduardo da Fonte ganha interesse político. A pesquisa DataTrends mostra Marília Arraes com 16%, Humberto Costa com 14%, Mendonça Filho com 13% e Eduardo com 11%. São apenas cinco pontos separando o primeiro do quarto colocado e três pontos entre Eduardo e Humberto, que aparece numericamente na segunda posição.
Mais importante do que a ordem atual, entretanto, é identificar onde pode estar o voto ainda disponível. Em uma eleição de duas vagas, o eleitor pode ter definido seu primeiro senador sem necessariamente ter escolhido o segundo. É exatamente nesse espaço que campanhas competitivas historicamente conseguiram crescer na reta final.
Eduardo tem ainda a condição de estar vinculado à chapa de Raquel Lyra. No levantamento DataTrends, a governadora aparece com 46%, contra 38% de João Campos, além de registrar 67% de aprovação. A diferença entre o desempenho de Raquel para governadora e o percentual de Eduardo para senador mostra que existe um contingente expressivo de eleitores da candidata ao governo que não necessariamente está hoje com ele para o Senado.
Esse é o terreno político a ser disputado. O desafio de Eduardo não depende apenas de conquistar eleitores que hoje declaram voto em outros candidatos. Passa também por tentar converter em voto para o Senado uma parcela do eleitorado que já escolhe Raquel para o Governo, mas ainda não associou suas duas escolhas senatoriais à chapa majoritária.
Os precedentes de Antônio Farias, Sérgio Guerra e, sobretudo, Armando Monteiro mostram que esse tipo de movimento já ocorreu em Pernambuco. Carlos Wilson, em 1994, acrescenta outro exemplo de candidatura que cresceu fortemente ao longo da campanha e terminou em posição superior àquela indicada meses antes.
Isso não permite antecipar o que acontecerá em 2026. Os adversários de Eduardo também possuem estruturas políticas, alianças e estratégias próprias para buscar o segundo voto. Mas a experiência das eleições anteriores ensina que, numa disputa por duas cadeiras, estar alguns pontos atrás em setembro não necessariamente significa chegar nessa posição às urnas.
A corrida pelo Senado pernambucano permanece aberta. E talvez uma das perguntas mais importantes desta reta final seja justamente esta: para onde irá o segundo voto do eleitor de Raquel Lyra? A resposta pode ter peso relevante na definição das duas cadeiras de Pernambuco no Senado.

