A mais recente pesquisa nacional do Datafolha oferece uma fotografia mais complexa da eleição presidencial do que o placar geral de Lula com 39% e Flávio Bolsonaro com 35%. O levantamento, realizado entre 8 e 10 de setembro com 2.002 eleitores em 125 municípios, margem de erro de dois pontos percentuais, coloca os dois no limite do empate técnico no primeiro turno. Augusto Cury aparece com 6%, Ronaldo Caiado com 4%, Renan Santos com 3% e Romeu Zema com 2%. No segundo turno, a polarização fica ainda mais evidente: Lula tem 46% e Flávio 44%, configurando empate técnico.
O dado mais relevante, porém, aparece quando a pesquisa é dissecada. A renda constitui uma das principais linhas divisórias do eleitorado. Entre quem recebe até dois salários mínimos, Lula alcança 47% contra 27% de Flávio, vantagem de 20 pontos. A situação se inverte entre os que recebem de dois a cinco salários: Flávio tem 42% contra 31% de Lula. Acima de cinco salários, a diferença chega a 47% contra 27% para Flávio. O levantamento revela, portanto, dois eleitorados socioeconômicos bastante distintos: Lula apresenta seu melhor desempenho na base da pirâmide, enquanto Flávio registra vantagem nas faixas superiores de renda.
A escolaridade reproduz parcialmente esse desenho. Entre os eleitores com ensino fundamental, Lula registra 52% contra 24%, diferença de 28 pontos. No ensino médio, Flávio aparece numericamente à frente por 40% a 35%, mas em empate técnico. No ensino superior, são 37% para Flávio e 30% para Lula, também em situação de empate técnico considerando a margem específica do segmento.
A religião produz uma das divisões mais acentuadas de toda a pesquisa. Entre os católicos, Lula registra 46% contra 29% de Flávio Bolsonaro. Entre os evangélicos, ocorre praticamente o movimento inverso: Flávio alcança 50%, enquanto Lula fica com 22%. São diferenças expressivas e em sentidos opostos, fazendo da religião uma das variáveis mais associadas às diferenças de intenção de voto encontradas pelo Datafolha.
O gênero também apresenta diferenças relevantes. Lula tem 41% entre as mulheres e Flávio 30%, vantagem de 11 pontos. Entre os homens, Flávio aparece numericamente à frente, com 40% contra 36% de Lula, embora dentro da margem de erro específica desse segmento. Assim, uma parcela importante da vantagem de Lula no resultado agregado está associada ao desempenho entre o eleitorado feminino.
A idade, curiosamente, divide menos o eleitorado. Entre os jovens de 16 a 24 anos, Lula tem 36% e Flávio 34%. Dos 25 aos 34 anos, Flávio aparece com 36% contra 35%. Nas faixas de 35 a 44 e de 45 a 59 anos, Lula registra 39% contra 35%. Entre os eleitores com 60 anos ou mais, Lula chega a 42% e Flávio marca 34%. Apesar das diferenças numéricas, há empate técnico nas cinco faixas etárias quando consideradas as margens de erro específicas.
Geograficamente, o Nordeste permanece como o principal diferencial favorável a Lula. Na região, o presidente registra 53% contra 25% de Flávio Bolsonaro. Nas demais grandes regiões do país, o levantamento apresenta situações mais equilibradas, dentro das margens específicas. Isso ajuda a explicar por que uma eleição nacional apertada pode apresentar diferenças muito maiores quando observada estado por estado.
A pesquisa também permite observar a evolução recente. Na rodada de 1º e 2 de setembro, Lula tinha 38% e Flávio 33%. Agora aparecem com 39% e 35%, respectivamente. Augusto Cury, que havia alcançado 8%, recuou para 6%. No cenário de segundo turno, o placar de 46% a 44% permaneceu inalterado.
O Datafolha revela, portanto, uma eleição nacional bastante equilibrada no agregado, mas formada por segmentos com comportamentos muito diferentes. Lula registra seus maiores diferenciais entre os mais pobres, eleitores com ensino fundamental, católicos, mulheres e moradores do Nordeste. Flávio Bolsonaro apresenta números superiores nas faixas de renda acima de dois salários mínimos e entre os evangélicos, além de vantagens numéricas entre homens e nos níveis médio e superior de escolaridade, embora alguns desses recortes estejam tecnicamente empatados.
Mais do que o placar de 39% a 35%, o retrato dos segmentos ajuda a compreender a estrutura da disputa. Renda, religião, escolaridade, gênero e território aparecem como divisões mais marcantes do que a idade. A pesquisa nacional é, na prática, a soma de diferentes “Brasis eleitorais”, que chegam a comportamentos bastante distintos antes de produzirem um resultado agregado muito próximo.



