Coluna desta quinta-feira

Foto: Ricardo Stuckert

O fantasma de 2015 ronda o quarto mandato de Lula

A vitória de Dilma Rousseff sobre Aécio Neves, em 2014, representou um dos momentos mais acirrados da história política brasileira. Reeleita por uma margem estreita, a petista havia construído sua campanha sobre a defesa de conquistas sociais, a manutenção de benefícios e a promessa de que não seriam necessários sacrifícios econômicos. Entretanto, tão logo conquistou o segundo mandato, Dilma promoveu uma guinada na política econômica, com aumento de impostos, restrições a benefícios e medidas de ajuste fiscal que contrariavam parte significativa do discurso eleitoral. O resultado foi devastador. A frustração de expectativas, somada à deterioração da economia e ao aprofundamento da polarização política, mergulhou o país numa crise de grandes proporções, que culminaria no impeachment da presidente em 2016.

Doze anos depois daquela eleição, o Brasil parece novamente diante de um roteiro preocupantemente semelhante. Luiz Inácio Lula da Silva conquistou seu quarto mandato presidencial, superando Flávio Bolsonaro numa disputa marcada pela rejeição ao governo, pelo desgaste econômico e pela profunda divisão do eleitorado. Mesmo enfrentando índices desfavoráveis de aprovação e um ambiente econômico que, em circunstâncias normais, dificultaria a continuidade de qualquer governante, Lula conseguiu assegurar mais quatro anos no Palácio do Planalto. A estratégia passou pela ampliação de benefícios, transferências de renda e iniciativas governamentais cujo impacto financeiro, segundo estimativas apresentadas durante a campanha, se aproximaria de R$ 400 bilhões. O presidente conseguiu transformar a máquina administrativa e a força das políticas sociais em instrumentos decisivos para sua sobrevivência eleitoral.

O problema é que a conta dessas escolhas inevitavelmente chegará. A situação fiscal brasileira já representa um dos maiores desafios do próximo mandato, diante das pressões sobre as despesas públicas, do endividamento e da necessidade de preservar a confiança dos agentes econômicos. Os primeiros sinais emitidos pelo governo depois da eleição apontam para decisões potencialmente contraditórias com o discurso adotado nas urnas. A discussão sobre a retomada da chamada taxa das blusinhas, por exemplo, simboliza o risco de medidas impopulares que podem atingir diretamente o consumidor. Assim como aconteceu com Dilma, a necessidade de recompor receitas e reorganizar as contas públicas poderá impor a Lula escolhas que foram convenientemente afastadas do debate eleitoral. A diferença é que o atual presidente dispõe de uma experiência política muito superior à de sua sucessora, embora isso não represente garantia contra uma crise de governabilidade.

Lula alcançou uma marca histórica ao conquistar seu quarto mandato e assegurar ao Partido dos Trabalhadores a sexta vitória presidencial em sete eleições desde 2002. Trata-se de uma demonstração extraordinária de longevidade política, mas também de uma responsabilidade proporcional ao tamanho dessa trajetória. O presidente precisará demonstrar que sua vitória não foi apenas resultado de uma estratégia eleitoral sustentada por benefícios de curto prazo, mas que existe um projeto econômico consistente para os próximos quatro anos. A semelhança entre os cenários de 2014 e 2026 merece atenção, sobretudo porque o país continua profundamente dividido. O Brasil não suporta outra sucessão de promessas frustradas, recessão econômica e instabilidade institucional. Que 2027 não seja uma reprise de 2015 e, principalmente, que 2028 não repita o traumático desfecho de 2016.

Rodrigo avança na pavimentação – O prefeito de Caruaru, Rodrigo Pinheiro, já contabiliza 550 ruas calçadas durante sua gestão e trabalha para alcançar a marca de 800 vias pavimentadas. Caso consiga atingir a meta, Rodrigo poderá entrar para a história como um dos prefeitos que mais realizaram obras de calçamento na Capital do Agreste. A iniciativa fortalece sua marca administrativa e representa uma entrega importante para a população, especialmente nos bairros que aguardavam melhorias de infraestrutura.

Lula e o Congresso – O presidente Lula sinalizou apoio às reeleições de Hugo Motta e Davi Alcolumbre para as presidências da Câmara e do Senado, respectivamente. O movimento representa uma tentativa de assegurar a governabilidade no quarto mandato, especialmente diante de um Congresso que terá uma composição mais à direita a partir de 2027. A articulação demonstra que o petista pretende preservar pontes com o Centrão para evitar dificuldades na aprovação de suas propostas.

Reforma eleitoral em pauta – O presidente da Câmara, Hugo Motta, anunciou nesta quarta-feira a intenção de votar ainda este ano uma proposta de reforma eleitoral que contempla a adoção do voto distrital misto. A mudança poderá alterar profundamente a eleição de deputados e vereadores, combinando representantes escolhidos diretamente nos distritos com vagas distribuídas proporcionalmente entre os partidos. A iniciativa já movimenta as lideranças partidárias e poderá redesenhar as estratégias eleitorais a partir de 2030.

Anistia em discussão – O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, avalia articular uma solução envolvendo indulto ou anistia ao ex-presidente Jair Bolsonaro. A iniciativa, segundo informações divulgadas nesta quarta-feira, teria como objetivo conquistar apoio de setores da direita para sua recondução ao comando da Casa. A possibilidade abre uma nova frente de negociação política em Brasília e poderá representar um teste importante para a relação entre Lula, o Congresso e a oposição.

Inocente quer saber – Por que Davi Alcolumbre não pautou a anistia antes?

Compartilhe esse post

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
WhatsApp
Páginas
Quem sou eu
Picture of Edmar Lyra

Edmar Lyra

Jornalista político, foi colunista do Diário de Pernambuco e da Folha de Pernambuco, palestrante, comentarista de mais de cinquenta emissoras de rádio do Estado de Pernambuco e CEO do instituto DataTrends Pesquisas. DRT 4571-PE.

Conhecer
Redes sociais