A soberba, a queda e as pedras que clamaram

Foto: Divulgação

Há derrotas que começam muito antes da abertura das urnas. Começam no instante em que alguém deixa de acreditar na invencibilidade do adversário.

Durante muito tempo, João Campos pareceu imbatível. Tinha juventude, sobrenome, estrutura política, exposição nacional e o peso de uma organização partidária que conhece como poucas os caminhos de uma eleição em Pernambuco.

A eleição para o Governo do Estado parecia, para muitos, menos uma disputa do que a próxima etapa de uma trajetória política previamente desenhada.

Do outro lado estava Raquel Lyra.

E talvez tenha sido esse o primeiro grande erro de avaliação de seus adversários.

Raquel entrou na disputa cercada de desconfiança. Questionava-se sua comunicação, sua popularidade, sua capacidade de articulação e até sua força para enfrentar um adversário apresentado como eleitoralmente poderoso.

Enquanto João era tratado como fenômeno, Raquel precisava diariamente provar que continuava no jogo.

Ela, porém, permaneceu.

Não confundiu fotografia com filme. Não tomou pesquisa por sentença. Não tentou ganhar a eleição antes do tempo.

Governou. Suportou críticas. Reorganizou alianças. Enfrentou dificuldades. Errou e acertou. Mas continuou caminhando quando muita gente já escrevia antecipadamente o roteiro de sua derrota.

Essa talvez tenha sido uma de suas principais características políticas durante todo o processo: resiliência.

Quando lhe disseram que João era imbatível, ela não precisava responder que o venceria.

Precisava apenas continuar.

E continuou.

Aos poucos, a percepção de uma eleição decidida antecipadamente começou a ser substituída pela percepção de uma disputa real.

E isso produz um fenômeno curioso na política: a força de determinados candidatos não está apenas nos votos que possuem, mas na crença coletiva de que não podem ser derrotados.

Quando essa crença desaparece, o gigante continua grande.

Mas deixa de ser invulnerável.

João Campos, entretanto, seguiu outro caminho.

Confiante na força eleitoral do PSB, na capacidade de sua estrutura política e no patrimônio eleitoral acumulado ao longo de gerações, conduziu uma campanha que, na minha avaliação, ultrapassou fronteiras que seu bisavô, Miguel Arraes, e seu pai, Eduardo Campos, conheciam muito bem.

Vi uma campanha agressiva, por vezes rasteira e, em determinados episódios, incompatível com o legado político que o próprio candidato reivindicava.

Talvez tenha acreditado demais na máquina, no marketing e na conhecida capacidade do PSB de disputar eleições.

E há nisso uma ironia quase arquitetônica.

Quanto maior a altura, maior pode ser a queda.

Do nono andar da Prefeitura do Recife, talvez o chão parecesse muito distante.

Mas a advertência é mais antiga do que pesquisas eleitorais, redes sociais, marqueteiros e partidos políticos:

“A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda.”

Provérbios 16:18.

Os antigos já sabiam.

Salomão já advertia.

Faltavam apenas as pedras.

Em uma das passagens mais poderosas do Evangelho de Lucas, quando alguns fariseus pedem a Jesus que repreenda seus discípulos, Cristo responde:

“Digo-vos que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.”

Lucas 19:40.

E é exatamente neste ponto que preciso abandonar por alguns instantes a análise política.

Porque há uma história que nunca contei publicamente.

E não a conheço por jornais.

Eu estava lá.

Quando Eduardo Campos morreu naquele trágico 13 de agosto de 2014, acompanhei pessoalmente parte daquele doloroso percurso.

Estive no Instituto Médico Legal de São Paulo.

Fui a Santos para providenciar a certidão de óbito exigida pela Aeronáutica.

Depois retornei a São Paulo.

E de lá embarquei no Hércules da Força Aérea Brasileira que trouxe os corpos para Pernambuco.

Durante aquela viagem, cinco caixões estavam ao meu lado.

É uma imagem que o tempo não apaga.

Quando o avião pousou no Recife, eu estava entre aqueles que carregaram o caixão de Eduardo Campos.

As fotografias daquele dia registram minha presença.

Mas existe algo que nenhuma fotografia poderia mostrar.

Havia muito pouco de seus restos mortais.

E relato agora exclusivamente aquilo que testemunhei pessoalmente: pedras foram colocadas no caixão para conferir à urna o peso de um corpo.

Pedras.

Mais de uma década depois, diante da campanha protagonizada pelo filho de Eduardo, aquela lembrança retornou à minha memória com uma força que jamais imaginei.

“Se estes se calarem, as próprias pedras clamarão.”

De repente, o versículo ganhou para mim um significado perturbadoramente literal.

Porque aquelas não eram pedras quaisquer.

Eram as pedras que viajaram conosco.

As pedras que deram peso ao caixão de Eduardo Campos.

As pedras que acompanharam o retorno a Pernambuco de um homem cuja morte parou o Estado e cuja memória se transformaria em um dos maiores patrimônios políticos de sua família.

E são justamente essas pedras que me fazem formular a pergunta mais difícil deste artigo:

O que Eduardo Campos pensaria da campanha feita por seu filho em nome de um legado que também é o seu?

Não responderei por Eduardo.

Os mortos não podem ser convocados como cabos eleitorais dos vivos.

Seria intelectualmente desonesto atribuir-lhe palavras que nunca pronunciou.

Mas posso falar daquilo que testemunhei.

Posso confrontar métodos com histórias.

Posso comparar a maneira como conheci Eduardo fazendo política com aquilo que presenciei nesta eleição.

E posso dizer que sobrenome não é salvo-conduto.

Herança familiar não é herança moral.

Muito menos herança política.

João recebeu um nome extraordinariamente poderoso na história de Pernambuco. Recebeu uma tradição política que passa por Miguel Arraes e Eduardo Campos. Recebeu uma estrutura partidária construída durante décadas. Recebeu, sobretudo, um patrimônio simbólico que poucos políticos brasileiros de sua geração tiveram o privilégio de receber.

Mas justamente por isso sua responsabilidade era maior.

Quanto maior a herança, maior a obrigação de preservá-la.

E talvez aí esteja uma das grandes lições desta eleição.

Raquel Lyra enfrentou a desconfiança e permaneceu.

João Campos enfrentou a confiança e precisou administrar o peso dela.

Uma começou tendo de provar que poderia disputar.

O outro começou cercado pela expectativa de que naturalmente chegaria ao destino.

A política, porém, tem profunda aversão aos destinos previamente escritos.

As urnas não reconhecem dinastias.

O eleitor não recebe ordens da história.

E nenhuma eleição pertence antecipadamente a alguém.

No final, talvez os provérbios estivessem certos desde o princípio.

A soberba precede a queda.

E talvez Lucas também estivesse.

Porque existem momentos em que homens se calam, aliados se calam, partidos se calam e conveniências políticas recomendam silêncio.

Nesses momentos, restam as pedras.

Eu sei.

Eu as vi.

Viajei com elas.

E jamais poderia imaginar que, tantos anos depois, ainda teria de ouvi-las clamar.

Sobrenomes são herdados.

Mandatos são conquistados.

Legados precisam ser merecidos.

E a história, essa não pertence a ninguém.

Por Bruno Brennand

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Quem sou eu
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Edmar Lyra

Jornalista político, foi colunista do Diário de Pernambuco e da Folha de Pernambuco, palestrante, comentarista de mais de cinquenta emissoras de rádio do Estado de Pernambuco e CEO do instituto DataTrends Pesquisas. DRT 4571-PE.

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