
Abstenção no Nordeste pode dificultar virada de Lula no segundo turno
A possibilidade de crescimento da abstenção no Nordeste poderá representar um obstáculo adicional para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na tentativa de reverter a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno das eleições presidenciais. No primeiro turno, realizado em 4 de outubro, Lula construiu uma vantagem de aproximadamente 11,1 milhões de votos na região, enquanto Flávio terminou a disputa nacional com 2,22 milhões de votos à frente do petista. O Nordeste apresentou abstenção de apenas 18,36%, abaixo da média brasileira de 21,07%, demonstrando maior comparecimento às urnas. Entretanto, um fator novo poderá alterar essa dinâmica no próximo dia 25: dos nove estados nordestinos, apenas o Rio Grande do Norte terá segundo turno para governador. Nos demais oito estados, a ausência de disputas estaduais simultâneas poderá reduzir a mobilização política e, consequentemente, o comparecimento dos eleitores.
O histórico eleitoral oferece parâmetros importantes para dimensionar esse risco. Em 2018, a abstenção nordestina no segundo turno ficou próxima de 19,9%, enquanto em 2022 recuou para 19,29%, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. Na última eleição presidencial, o Nordeste apresentou inclusive redução de 19,53% para 19,29% entre os dois turnos, demonstrando que o crescimento da ausência não é automático. A média dos segundos turnos de 2018 e 2022 ficou próxima de 19,6%, percentual superior ao registrado na primeira votação deste ano. A particularidade de 2026 está na concentração das disputas estaduais: apenas o Rio Grande do Norte terá uma eleição simultânea para governador, entre Allyson Bezerra e Cadu de Lula. Nos demais estados, prefeitos, deputados e lideranças políticas não terão candidatos estaduais diretamente envolvidos na votação, circunstância que poderá modificar a intensidade da mobilização eleitoral.
Os números ajudam a compreender a dimensão dessa possibilidade. Considerando aproximadamente 43,5 milhões de eleitores nordestinos, cada ponto percentual adicional de abstenção representa cerca de 435 mil pessoas fora das urnas. Se o índice regional subir dos atuais 18,36% para 20,36%, aproximadamente 870 mil eleitores adicionais deixarão de votar. Num cenário hipotético em que 65% dessas ausências correspondam a potenciais eleitores de Lula e 35% aos de Flávio Bolsonaro, o presidente perderia cerca de 566 mil votos, enquanto o adversário deixaria de receber 305 mil. A consequência seria uma redução líquida de aproximadamente 261 mil votos na vantagem regional do petista. Caso a abstenção aumente três pontos percentuais, chegando a 21,36%, seriam aproximadamente 1,3 milhão de ausências adicionais, com redução potencial de 392 mil votos na diferença favorável a Lula. São simulações condicionais, e não previsões sobre o comportamento dos eleitores.
O problema político para Lula é que sua recuperação nacional depende não apenas da conquista de novos votos, mas também da preservação da expressiva vantagem obtida no Nordeste. Uma eventual desmobilização regional poderá diminuir o efeito de ganhos conquistados em outras partes do país, especialmente se atingir proporcionalmente mais eleitores petistas. Por outro lado, a experiência de 2022 demonstra que uma disputa presidencial competitiva também pode estimular o comparecimento, mesmo sem eleições estaduais em todos os estados. A ausência de segundo turno para governador em oito unidades nordestinas não determina, portanto, uma elevação da abstenção, mas introduz uma variável relevante na disputa. Num cenário nacional decidido por margens estreitas, a diferença entre uma abstenção regional de 18%, 20% ou 21% poderá ter consequências importantes para o resultado. O comportamento do eleitorado nordestino será, assim, um dos indicadores decisivos a observar na apuração de 25 de outubro.
Nova pesquisa – O DataTrends registrou novo levantamento para a presidência da República. A divulgação está prevista para o próximo dia 19 de outubro, trazendo novos números da disputa entre Flávio Bolsonaro e Lula.
MDB dividido – O MDB oficializou apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, mas a decisão expôs divergências internas. Pelo menos dez diretórios estaduais manifestaram apoio ao presidente Lula (PT), evidenciando a dificuldade da legenda em construir uma posição consensual. A divisão demonstra que, apesar da orientação nacional, o comportamento das lideranças regionais poderá seguir caminhos distintos até 25 de outubro.
Pesquisas na expectativa – A divulgação da primeira pesquisa Quaest do segundo turno, prevista para esta quarta-feira, movimenta os bastidores da disputa presidencial. O levantamento, contratado pelo Grupo Globo, ouviu 2.154 eleitores e tem margem de erro de dois pontos percentuais. Na quinta-feira será a vez do Datafolha, com 2.520 entrevistas. As duas pesquisas permitirão comparar os resultados das sondagens presenciais com os levantamentos telefônicos que apontaram vantagem numérica de Flávio Bolsonaro sobre Lula.
Fim da escala 6×1 – O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil), anunciou a obtenção das 54 assinaturas necessárias para acelerar a votação da proposta que acaba com a escala de trabalho 6×1. A expectativa é que a matéria seja analisada nesta quarta-feira, em dois turnos. A proposta reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem diminuição salarial. Considerada prioridade pelo governo Lula, a medida também recebeu manifestação favorável de Flávio Bolsonaro, demonstrando a relevância do tema na agenda política nacional.
Inocente quer saber – Como virão os novos números do DataTrends para presidente da República?



