A pesquisa nacional do DataTrends divulgada nesta quarta-feira acende um sinal de alerta para o presidente Lula na reta final da campanha. O problema para o petista não está apenas na distância para Flávio Bolsonaro, mas na combinação dos indicadores apresentados pelo levantamento. Lula tem 39% contra 35% de Flávio no primeiro turno, uma diferença de quatro pontos que, considerada a margem de erro de 2,19 pontos percentuais, configura empate técnico no limite. No segundo turno, a situação fica ainda mais apertada: Flávio aparece numericamente à frente, com 45%, contra 44% de Lula. A menos de três semanas da eleição, o DataTrends descreve uma disputa sem vantagem estatisticamente segura entre os dois principais candidatos.
O dado potencialmente mais sensível para Lula, entretanto, está na avaliação de seu próprio governo. O DataTrends mostra que 50% desaprovam a maneira como o presidente conduz a administração, enquanto 44% aprovam. Quando a pergunta é sobre a avaliação do governo, apenas 32% classificam a gestão como ótima ou boa, contra 43% que a consideram ruim ou péssima. Para um presidente que disputa a reeleição, esses números constituem uma dificuldade objetiva: Lula não enfrenta apenas um adversário eleitoral competitivo, mas também precisa convencer uma parcela do eleitorado que faz avaliação negativa de sua administração. Em uma eleição polarizada, a discussão sobre continuidade ou mudança tende a ganhar peso justamente porque o ocupante do Planalto é também candidato.
A geografia eleitoral ajuda a explicar o equilíbrio. No confronto de segundo turno, Lula alcança 65,9% no Nordeste, região que permanece como seu principal território eleitoral. Flávio, entretanto, aparece numericamente à frente nas outras quatro regiões pesquisadas: 52,3% a 35,4% no Sudeste; 51,7% a 37,9% no Sul; 57,9% a 26,4% no Centro-Oeste; e 46,6% a 42,5% no Norte. A desaprovação do governo acompanha parcialmente essa divisão: chega a 65,8% no Centro-Oeste, 61,7% no Sul, 58,4% no Sudeste e 56,3% no Norte. No Nordeste ocorre o movimento inverso, com 69,2% de aprovação. A eleição apresentada pelo DataTrends, portanto, é também uma disputa entre diferentes comportamentos regionais do eleitorado.
O aspecto que torna o levantamento especialmente relevante é que o equilíbrio não aparece somente no DataTrends. O Datafolha divulgado na semana passada também registrou Lula com 39% e Flávio com 35% no primeiro turno, igualmente classificados como tecnicamente empatados. A Quaest desta semana encontrou Lula com 36% e Flávio com 31% no primeiro turno e, no segundo, Flávio numericamente à frente por 42% a 40%, também dentro da margem de erro. Na mesma Quaest, 50% desaprovavam o governo e 43% aprovavam. São pesquisas independentes, com metodologias próprias, que não devem ter seus percentuais simplesmente somados ou tratados como uma única medição, mas que apresentam alguns sinais semelhantes de competitividade eleitoral e dificuldade na avaliação da gestão.
O DataTrends, portanto, coloca uma questão importante para a reta final: até que ponto Lula conseguirá separar sua força eleitoral da avaliação de seu governo? O presidente mantém um piso eleitoral expressivo e uma vantagem muito significativa no Nordeste, mas chega às últimas semanas sem uma vantagem estatisticamente segura sobre Flávio no levantamento. O senador, por sua vez, também enfrenta resistências relevantes e não possui vantagem estatisticamente comprovada sobre Lula. O que a pesquisa permite afirmar é que a eleição está aberta: Lula aparece numericamente à frente no primeiro turno, Flávio numericamente à frente no segundo, e ambos permanecem tecnicamente empatados. Para o presidente, porém, existe uma variável adicional que somente ele carrega: o julgamento de quatro anos de governo nas urnas.



