
Menos do que parece
Desde a primeira eleição de Luiz Inácio Lula da Silva para a Presidência da República, em 2002, existe em Pernambuco a percepção de que o apoio do líder petista seria decisivo para definir os rumos da disputa pelo Governo do Estado. A história eleitoral, entretanto, mostra um cenário mais complexo. Embora Lula sempre tenha sido um ativo político relevante, especialmente em um estado onde tradicionalmente obteve votações expressivas, sua influência direta na escolha do governador frequentemente ficou abaixo do que se imaginava. Em diversas ocasiões, as dinâmicas locais se mostraram mais determinantes do que a associação com o presidente ou com o PT.
A primeira evidência surgiu ainda em 2002. Enquanto Lula conquistava sua primeira vitória nacional, o então governador Jarbas Vasconcelos garantiu a reeleição com ampla vantagem, mesmo estando em um campo político distinto. Em 2006, Lula entrou oficialmente na disputa estadual ao lado de Humberto Costa, mas foi Eduardo Campos, lançado como alternativa e inicialmente tratado como terceira via, quem cresceu ao longo da campanha, chegou ao segundo turno e venceu a eleição. Quatro anos depois, em 2010, a força política de Eduardo já era tão grande que sua reeleição foi construída muito mais sobre sua aprovação estadual do que sobre qualquer influência do então presidente da República.
O roteiro se repetiu nos pleitos seguintes. Em 2014, Lula apoiou Armando Monteiro na disputa estadual, mas a vitória ficou com Paulo Câmara, herdeiro político do projeto liderado por Eduardo Campos. Em 2018, com o PT novamente integrado à Frente Popular, Paulo foi reeleito ainda no primeiro turno, em uma eleição marcada por fatores locais e pela consolidação de sua aliança política. O exemplo mais emblemático, porém, ocorreu em 2022. Mesmo tendo Lula como principal cabo eleitoral, Danilo Cabral, candidato oficial do campo petista, terminou apenas na quarta colocação. Já no segundo turno, o apoio de Lula a Marília Arraes não foi suficiente para impedir a vitória de Raquel Lyra, que construiu sua trajetória a partir de uma narrativa própria e das circunstâncias políticas do estado.
Diante desse retrospecto, a disputa de 2026 tende a seguir a mesma lógica. O embate entre João Campos e Raquel Lyra deverá ser definido principalmente pela avaliação que os pernambucanos farão sobre a gestão estadual, a capacidade administrativa dos candidatos e as alianças construídas no território. A tentativa de transformar a eleição em uma competição para medir quem é mais ou menos lulista provavelmente terá impacto menor do que muitos imaginam. Isso não significa ignorar o peso político de Lula, que continua sendo uma das figuras mais influentes do país. Significa apenas reconhecer que, em Pernambuco, as urnas têm demonstrado repetidamente que o eleitor costuma separar a escolha para presidente da escolha para governador. E, até aqui, as definições mais importantes ocorreram muito mais pela conjuntura local do que pelo chamado fator Lula.
Virgem – Em que pese todo reconhecimento que o eleitor pernambucano tem ao presidente Lula, o PT está virgem de ganhar uma eleição em Pernambuco para o governo. Nas vezes que tentou foi sumariamente derrotado. Pernambuco é reduto do PSB e teve alternâncias com o PSDB/PSD, MDB e PDS/PFL desde a redemocratização.
Fiel da balança – Na verdade, as vitórias de João Campos em 2020 e Raquel Lyra em 2022 foram determinadas pelo eleitor de centro-direita. Na disputa municipal, João Campos foi visto como um “mal menor” e acabou capitalizando os votos contra sua prima. Raquel Lyra igualmente derrotou Marília também alavancada pelo voto de direita em 2022.
Nominalmente – A entrevista da governadora Raquel Lyra à CNN Brasil chamou atenção com duas declarações sobre o Senado. Primeiro ela disse que não haveria surpresas, segundo citou apenas Túlio Gadelha e Miguel Coelho nominalmente como opções para o Senado. Todo mundo achou estranho ela não ter falado os nomes de Eduardo da Fonte e Fernando Dueire, que permanecem no páreo para a Câmara Alta.
Inocente quer saber – A declaração de Raquel Lyra sobre o Senado foi de caso pensado ou ato falho?



