
Por Inácio Feitosa
Reeleita, a governadora Raquel Lyra tem a chance de fazer do empreendedorismo uma política de Estado, e não apenas um conjunto de programas. Ela parte de uma base real: entre janeiro e maio de 2026, Pernambuco abriu 73.461 empresas, o segundo maior número do Nordeste, e leva em média 20,3 horas para abrir um negócio, contra cerca de 31 horas no país, segundo a Secretaria de Desenvolvimento Econômico. Abrir, o pernambucano já sabe. O problema está no que vem depois.
Cerca de 46% dos ocupados no Estado seguem na informalidade, segundo o IBGE, e apenas dois em cada três MEIs continuam ativos após dois anos, segundo o Sebrae. São cerca de 300 mil as mulheres à frente de pequenos negócios, muitas com pouco crédito e pouca rede de apoio. Na EJA Nacional, que o Instituto Darcy Ribeiro mantém em Monteiro, convivo com adultos que voltam à escola já trabalhando por conta própria: falta-lhes menos coragem do que formação. Abre-se muito e sobrevive-se menos do que se deveria. Falta crédito que chegue, gestão que ensine, mercado que compre e um Estado que acompanhe o empreendedor depois do CNPJ.
Minha sugestão é simples e exigente: que o Governo assuma 55 metas para os próximos quatro anos, cada uma com indicador, prazo e responsável, e com prestação de contas anual. Sem meta, a política vira discurso; com meta, o cidadão pode cobrar. Os números abaixo são propostas minhas e devem ser calibrados com os dados do Estado.
INTERIORIZAR A INOVAÇÃO
Incubadoras, aceleradoras, mentoria e capital ainda se concentram na Região Metropolitana. Proponho:
1. Criar seis hubs de inovação no Interior, em Caruaru, Petrolina, Garanhuns, Serra Talhada, Araripe e Salgueiro, até o segundo ano.
2. Instalar ao menos uma incubadora em cada região de desenvolvimento.
3. Acelerar 2.000 negócios do Interior.
4. Formar uma rede de 500 mentores voluntários, com empresários que já cresceram.
5. Criar um fundo estadual de capital semente, com ao menos 100 negócios do Interior investidos.
6. Abrir espaços públicos de coworking, com internet de qualidade, em 50 municípios.
7. Apoiar 5.000 jovens empreendedores do Interior, para que não precisem empreender fora do Estado.
8. Realizar 12 feiras e rodadas de negócios por ano, circulando pelo território.
CONECTAR GRANDES E PEQUENOS
Suape, o polo automotivo e o farmacoquímico compram muito, mas deixam pouca renda na economia local. Proponho:
9. Criar um programa de desenvolvimento de fornecedores ligado a Suape, ao polo automotivo e ao farmacoquímico.
10. Cadastrar 3.000 micro e pequenas empresas como fornecedoras qualificadas.
11. Destinar no mínimo 30% das compras públicas estaduais a pequenos negócios locais.
12. Criar um selo de certificação acessível e de baixo custo para pequenas fornecedoras.
13. Realizar oito rodadas anuais de negócios entre grandes compradores e pequenos fornecedores.
14. Exigir plano de contratação local nos grandes incentivos fiscais.
15. Publicar um painel anual com quanto os grandes empreendimentos compram de empresas pernambucanas.
CRÉDITO E FINANCIAMENTO
Com os juros básicos em patamar elevado, o pequeno fica entre o juro caro e a informalidade. O Estado pode abrir outro caminho:
16. Criar um fundo de aval estadual para quem não tem garantia.
17. Firmar parcerias com cooperativas de crédito em todas as regiões.
18. Simplificar o microcrédito, com resposta em até 10 dias úteis e contratação 100% digital.
19. Criar uma linha específica de capital de giro para pequenos negócios.
20. Criar uma linha de crédito para quem quer formalizar e crescer.
21. Atender 100.000 empreendedores com crédito orientado.
22. Oferecer educação financeira a todo tomador de microcrédito.
23. Medir e publicar anualmente o tempo e o custo de acesso ao crédito, com meta de redução.
GESTÃO, VENDAS E AGREGAÇÃO DE VALOR
Vender matéria-prima é pouco; é preciso criar marca e conquistar mercados fora do Estado. Proponho:
24. Capacitar 150.000 empreendedores em gestão, caixa e vendas.
25. Criar um programa de vendas digitais para 20.000 pequenos negócios.
26. Estruturar 10 cadeias produtivas regionais: confecções, gesso, fruticultura irrigada, vitivinicultura, economia criativa, turismo, gastronomia, artesanato, laticínios e cachaça.
27. Apoiar a criação de 50 marcas coletivas e indicações geográficas.
28. Estimular a formação de 100 novas cooperativas e associações produtivas.
29. Apoiar a exportação de 500 pequenas empresas.
30. Criar um programa de sucessão e governança para 1.000 negócios familiares.
31. Elevar para 80% a taxa de MEIs apoiados que seguem ativos após dois anos, hoje em torno de 66%.
EMPREENDEDORISMO FEMININO
Como escrevo em meu livro _Poder das Mulheres Empreendedoras, não falta talento, falta acesso. A mulher empreende e, ao mesmo tempo, cuida da casa, e a política pública precisa caber nessa rotina:
32. Criar o Programa Estadual de Empreendedorismo Feminino, com lei e orçamento próprios.
33. Capacitar 40.000 mulheres em gestão, vendas e finanças.
34. Destinar 40% do microcrédito estadual a mulheres.
35. Criar uma rede de mentoria com 300 empreendedoras experientes.
36. Formalizar 20.000 negócios liderados por mulheres.
37. Reservar ao menos 10% das compras públicas para empresas de mulheres.
38. Oferecer vagas em creche e horários flexíveis para mães empreendedoras em 50 municípios.
39. Criar 12 casas da mulher empreendedora no Interior.
EJA E FORMAÇÃO PARA O EMPREENDEDORISMO
Quem volta à escola na Educação de Jovens e Adultos já é, em grande parte, trabalhador, autônomo ou dono de negócio informal. A EJA pode ser a porta de entrada do empreendedorismo:
40. Incluir educação empreendedora, com finanças, vendas, MEI e atendimento, em 100% das turmas de EJA do Ensino Médio.
41. Certificar 50.000 alunos da EJA em empreendedorismo.
42. Oferecer cursos livres de qualificação profissional a todo aluno que concluir.
43. Acompanhar por 12 meses os egressos que abrirem negócio.
44. Formalizar como MEI 10.000 egressos.
45. Fazer busca ativa de adultos sem Ensino Médio, com meta anual de matrículas por município.
46. Abrir polos de EJA em associações, sindicatos e empresas, para atender quem trabalha.
47. Criar um prêmio anual de negócios criados por alunos e egressos da EJA.
SIMPLIFICAÇÃO E SEGURANÇA JURÍDICA
O Estado já abre empresas depressa; o desafio é manter o ritmo no Interior e facilitar também o crescer e o licenciar:
48. Garantir a abertura de empresa de baixo risco em até 24 horas em todos os municípios, consolidando o bom resultado atual.
49. Integrar em um único portal digital todas as licenças estaduais.
50. Reduzir em 50% o prazo de licenciamento ambiental para atividades de baixo impacto.
51. Garantir licença automática para atividades de baixo risco.
52. Criar um balcão de atendimento ao empreendedor em cada região, com orientação jurídica básica.
53. Criar uma câmara estadual de mediação para conflitos empresariais de menor valor.
54. Firmar convênio com os municípios para uniformizar alvarás e taxas.
55. Criar o Conselho Estadual do Empreendedorismo, reunindo poder público, Sebrae, sistema S, universidades e iniciativa privada, com relatório público anual de execução das 55 metas.
Governar por metas é aceitar ser cobrado, e é por isso que elas valem mais do que promessas. Em 2030, o balanço de um governo que acredita em quem empreende não deve caber em discurso. Deve caber em empresas que sobrevivem, em mulheres com crédito na mão e em adultos que voltaram à escola com um plano de negócio no caderno. Pernambuco já provou que sabe abrir portas. Falta garantir que elas continuem abertas, do Recife ao Sertão.
Inácio Feitosa é advogado, mestre em Educação pela UFPE, empresário e autor de seis livros. Preside o Instituto Darcy Ribeiro, fundou o Instituto IGEDUC e é CEO da TED – Negócios e Empreendimentos. Foi diretor do SENAI Pernambuco.



